Comecei
cedo o dia, com algo que, para outros seria trabalho. A esventrar código php e
css de uma plataforma, alterando os ficheiros de origem, relembrando os velhos,
de dez ou mais anos atrás, momentos em que programava páginas web para
empresas, em paralelo à atividade normal de professor e outras. Mas isto foi a
partir das 11 até ao almoço. Depois do almoço parti sem destino, devagar,
olhando a paisagem como é pressuposto. O destino e a companhia levaram-me à
praia. Ela queria tremoços, eu há meses que queria sentir nos pés a água fria.
Somos assim, diferentes, eu a noite e a ela o dia.
Era
já final da tarde, mas estava-se bem. Caminhámos até junto ao mar. Enquanto ela
estudava estatística, descalcei os sapatos e as meias, arregacei as calças e
enfrentei o mar. Nos pés concentrei todas as forças obscuras que me perseguiram
nos últimos tempos, o lado negro da força, e vaga após vaga, senti a frescura
levar tudo. Fechei os olhos e deixei que os outros sentidos deixassem entrar os
estímulos. Mesmo vestido, espraiei-me deitado na areia, mão por detrás da
cabeça e fiquei ali a desfiar pensamentos.
Não
me pesam 52 anos. Pesa-me a falta de tempo para rever e processar todo o
caminho, todas as experiências vividas até aqui. Comecei por pensar porque é
que cientificamente, é saudável ir à praia e, sem ter lido o estudo, dei a
minha própria razão simples: na praia, concentravam-se muitas e felizes
recordações de infância. E como os nossos pensamentos, as imagens que trazemos
à flor da mente determinam as emoções e o estado do espirito e este o estado do
corpo, para mim fazia sentido.
Procurei
as minhas. Foi muito atrás: ovos com salsichas. A praia significa sempre os
ovos com salsichas que a minha mãe fazia, enquanto acampávamos, naquela mesma
praia onde estava agora. Naquele tempo, o campismo era a alternativa única
viável para os operários do sector têxtil, Essa vida frugal, decerto fez com
que hoje eu possa fazer uma vida menos frugal. Nas arribas de areia lembrei as
camarinhas. Uma só colega de brincadeira, uma vez, dentro de uma tenda, não sei
bem até onde, os olhos e os pensamentos exploraram um o outro.
Para
a praia, na minha adolescência, não muito longe dali, ia de mota ou de carreira
com o único fim de estar com a minha primeira namorada séria. Séria no sentido
em que para mim foi um caso muito sério. Parece que para ela também: disse-me
há dias que sempre gostara de mim. Decerto é por isso que está ali mesmo ao
lado, mais de 30 anos depois, com uma mão cheia de papeis, calças desapertadas,
e me vem beijar no intervalo dos exercícios de probabilidades. Está ali porque
a cada momento o universo nos apresenta infinidades múltiplas a partir de um
momento de escolha. Está talvez porque gosta de esparguete com salsichas, o
prato que a mãe dela fazia para nós. Lembro-me de estender a minha toalha ao
lado da dela, admirar a sua beleza e querer tudo dela. Olho para ela: dois anos
mais que eu, parece-me que tem os mesmos 20 anos do que quando a conheci. A boa
disposição e o humor, a atitude prática, são a antítese das minhas fases profundas
de constante reflexão.
Os
meus pés remexiam a areia, só para sentir a sensação da areia a ser movida, na
pele. Durante anos, escavei buracos, com os pés e as mãos, para os meus filhos.
Primeiro pequenas lagoas para brincarem, ainda de fralda na praia, depois
coisas maiores onde se pudessem esconder quase de corpo inteiro. Eram tão
pequenos que não se lembram decerto. Saí de casa quando o mais novo tinha 6
anos apenas. Há dias escolhi uma das muitas fotos e mandei fazer um selo,
comigo sentado na areia e os dois nos meus braços. Escolhi essa imagem da
praia. Estão longe, adolescentes, sem ninguém que lhes conte como eu gostava de
contar, histórias. Conto as minhas histórias e passo as minhas experiências a
adultos, por profissão. Mudo a vida deles e, no entanto, não consigo fazer nada
pelos meus filhos.
Vi
as horas, no meu G-Shock amarelo: 18 horas e começava a sentir o frio.
Apaixonei-me por ele há muitos anos, quando preparávamos um curso de mergulho
em gruta e escolhíamos material para importar ou comprar.
Também
ele me trazia recordações da praia. Uma semana, o ano passado, com o amor que
perdi e reencontrei, depois de ter perdido toda a fé nesse ser fabuloso que
desde sempre me apaixonou: a mulher. Há medida que percorremos o caminho
aprendemos que devemos concretizar os nossos sonhos e que só nós o podemos
fazer. Mesmo que envolvam outros, há passos que precisamos dar.
Voltei
devagar, sem pressas e sem nada esperar mais deste dia que foi cheio, embora me
tivesse dado bem mais. Há noite, e agora, enquanto escrevo, retorno a uma
paixão musical do passado do género Gospel.
Deixo
aqui, estas pequenas reflexões, na esperança que um dia, aqueles a quem gostava
de contar as minhas histórias, descubram os meus 12 blogs onde me espalho, os
três perfis de facebook, e pelo menos, que me lembre 4 grupos.
Este
é o legado que te deixo amiga e, desculpa, a responsabilidade.