segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

Cansado de Palavras



Fugi das palavras escritas e marteladas de forma pensada para abraçar as pessoas. E as pessoas continuam a martelar nas palavras: escritas, ditas, pensadas.
Continuam a delinear em sua volta um espaço amplo que enchem de palavras. Estão gastas as palavras. Algures no final de um dia, em que todas as palavras parecem gastas, onde os gestos são substituídos por actos mecânicos que não perseguem sonhos senão solitários, penso naquele campo de cevada.
Sem sonhos ao dormir, sonho acordado com o movimento e com os gestos significativos que transcendam palavras, com o movimento da cevada e o vento que sopra. O Vento que as leve todas: do belo, do bom, tantas outras. Leve-as o vento.
Sonho com o movimento, não preciso de letras nem de sons que não o do vento purificador, forte, que acabe com todos os outros ruídos-
Deixem-me correr até ao horizonte e perder-me aí, sem ouvir senão o vento, e tempestades, chuva e trovões, coisas que percebo: o som do trovão e da chuva e a pele arrepiada com o vento e a água.
Fugi das palavras para sentir, como uma criança de saia curta, a vegetação nas pernas, enquanto corre. As ervas tocam e sentem-se de uma forma que as palavras não. As ervas nascem, crescem e morrem e as palavras são eternamente velhas. Nas ervas há vida, há transformação, há movimento. Nas palavras há constância e monotonia. As pessoas sentem as palavras mesmo gastas, não lhes tiram o sentido, as esvaziam, para preencher esse vazio de ações, com medo, ou porque percebem que não conseguem colocar no lugar vazio as acões.
As pessoas estão presas às palavras e ao seu conteúdo.
Não me dêm palavras.

Como em Tempos

 Como em tempos, lembro-me de alguém dizer, conheci alguém quase como tu, e parece tê-lo ouvido de novo. Como em tempos senti que não precis...