terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

Como em Tempos

 Como em tempos, lembro-me de alguém dizer,

conheci alguém quase como tu,

e parece tê-lo ouvido de novo.

Como em tempos senti

que não precisava de esperar um segundo

para me arrepender

de o não ter feito,

não ter descoberto um mar de pele

no teu rosto.

Enraivecido por uma só vida,

por um só mundo,

pelas areias movediças,

as regras,

que nos desprendem

dos sentidos

e nos deixam a sentir

nada.

Um dia, talvez,

um dia talvez,

talvez nunca,

miserávelmente.


segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

Encontro de almas

"Vem,

Conversemos através da alma.
Revelemos o que é secreto aos olhos e ouvidos.

Sem exibir os dentes,
Sorri comigo, como um botão de rosa.
Entendamo-nos pelos pensamentos,
Sem língua, sem lábios.

Sem abrir a boca,
Contemo-nos todos os segredos do mundo,
Como faria o intelecto divino.

Fujamos dos incrédulos
Que só são capazes de entender
Se escutam palavras e vêem rostos.

Ninguém fala para si mesmo em voz alta.
Já que todos somos um,
Falemos desse outro modo.

Como podes dizer à tua mão: “toca”,
Se todas as mãos são uma?
Vem, conversemos assim.

Os pés e as mãos conhecem o desejo da alma.
Fechemos pois a boca e conversemos através da alma.
Só a alma conhece destino de tudo, passo a passo.

Vem, se te interessas, posso mostrar-te"


– Jalâl ad-Din Rûmî, em “Poemas Místicos: Divan de Shams de Tabriz”. [seleção, introdução e tradução José Jorge de Carvalho]. São Paulo: Attar Editorial, 1996.

domingo, 26 de dezembro de 2021

Pouco sei

 Sei o cheiro dos teus cabelos,

sei que quando não os consigo cheirar,

cheiram sempre diferente,

e isso apoquenta-me e faz-me sonhar.

Quando o apanhas dá vontade,

como uma criança,

de enredar os dedos, e brincar.

Quando o soltas,

fico apenas a olhar, num olhar de relance,

rápido, que depois fica

a saborear.

Sei que quando soltas o teu rosto,

daquele ar firme e sério,

acho graça, sem o saber explicar.

Admiro os teus seios pois sei,

de olhos fechados, que as minhas mãos

em concha os encaixariam na perfeição.

Sei das tuas costas, que duas mãos esticadas

chegariam para as massajar na totalidade

com movimentos verticais

de alto a baixo.


segunda-feira, 9 de agosto de 2021

Um Vislumbre

 


Por vezes vemos vislumbres de estrelas. Na saída do supermercado reparei numa mulher, a utilizar o multibanco cujo vestido era aberto, totalmente nas costas. A costa portuguesa é espantosa - pensei. Sempre em andamento notei que não havia sinais de costelas, antes sobre elas existia uma ligeiramente espessa camada de tecido que imaginei facilmente agarrar em pregas esticando todo um busto que não via na parte frontal. Seguindo para o carro com aquela visão, que já tinha valido o dia, mesmo ao entrar reparei que a figura se preparava para entrar na sua viatura, mesmo al lado direito da minha, mas no lugar da frente, colocando-me numa posição excelente de observação. Fiquei ali.

De forma estonteante, abriu a porta, lançou uma perna para dentro, e a parte inferior do vestido rasgou como que por milagre numa esplendida perna, grossa, quase até á coxa. Não sei se suspirei, mas suspiro agora que o lembro. A parte frontal do vestido, com a curvatura do corpo ao entrar, abriu-se ligeiramente do lado esquerdo colocando á vista uma mama imponente; jesus senhor. Enquanto conduzia ainda imaginei quais seriam as palavras escritas que traduziriam os sons que aquela boca larga emitiria se fosse dada a devida atenção àquela mama.

Lembro-me do tempo em que perguntava o número de sutiã e os centímetros de uma mama, e bastou olhar: no mínimo 40, e uma mão minha de 22 cm, não conseguiria cobrir toda a sua superfície.

Velho amigo Ooj do SL, Motorboating...

terça-feira, 13 de outubro de 2020

O maior de Ti

Nunca conheci  antes ninguém tão pequeno e tão grande.

Minto, talvez a Céu Gaspar, a que me ofereceu na faculdade o papalagui, assinado por toda a turma e professores.

Tu, como ela tens ainda maior que ela algo gigante: o coração.

Mas existem corações grandes em muitos de nós. A questão é a forma com lidas com ele, como o teu cérebro viaja em conjunto com ele e como constróis uma realidade simples que te basta, quando o teu cérebro visionário vê muito mais que isso.

Outra coisa apaixonante em ti, são os olhos. Já o referi algumas vezes: nunca conheci alguém que mexa assim os olhos excepto há pouco tempo mais uma pessoa, embora mais lentamente - o meu filho.

Sempre admirei o cérebro humano, desde as minhas primeiras leituras sobre Broca e outros. Procurava-o e ainda procuro nos cientistas e filósofos do ocidente e do oriente.

Alguns cérebros são no entanto como aqueles relógios suíços, para os quais ficamos apenas a olhar e a contemplar. Como um campo de Cevada. É assim o teu, em todo o conjunto, Por isso ficas guardada aqui, nos meus campos de cevada, nas coisas e pessoas que se não existisses e eu tivesse uma oportunidade e as conseguisse imaginar, as pediria a um ser qualquer que fosse capaz de ser criador.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

Cansado de Palavras



Fugi das palavras escritas e marteladas de forma pensada para abraçar as pessoas. E as pessoas continuam a martelar nas palavras: escritas, ditas, pensadas.
Continuam a delinear em sua volta um espaço amplo que enchem de palavras. Estão gastas as palavras. Algures no final de um dia, em que todas as palavras parecem gastas, onde os gestos são substituídos por actos mecânicos que não perseguem sonhos senão solitários, penso naquele campo de cevada.
Sem sonhos ao dormir, sonho acordado com o movimento e com os gestos significativos que transcendam palavras, com o movimento da cevada e o vento que sopra. O Vento que as leve todas: do belo, do bom, tantas outras. Leve-as o vento.
Sonho com o movimento, não preciso de letras nem de sons que não o do vento purificador, forte, que acabe com todos os outros ruídos-
Deixem-me correr até ao horizonte e perder-me aí, sem ouvir senão o vento, e tempestades, chuva e trovões, coisas que percebo: o som do trovão e da chuva e a pele arrepiada com o vento e a água.
Fugi das palavras para sentir, como uma criança de saia curta, a vegetação nas pernas, enquanto corre. As ervas tocam e sentem-se de uma forma que as palavras não. As ervas nascem, crescem e morrem e as palavras são eternamente velhas. Nas ervas há vida, há transformação, há movimento. Nas palavras há constância e monotonia. As pessoas sentem as palavras mesmo gastas, não lhes tiram o sentido, as esvaziam, para preencher esse vazio de ações, com medo, ou porque percebem que não conseguem colocar no lugar vazio as acões.
As pessoas estão presas às palavras e ao seu conteúdo.
Não me dêm palavras.

sábado, 6 de julho de 2019

As Minhas Penas



As minhas penas
Não são
como as dos pássaros.
As dos pássaros
caem
por uma única razão:
podem voar.
Se não voassem,
alto, perto das nuvens,
as penas eram também
pesadas.
Tudo o que é importante
só para mim,
torna-se
nessas penas,
que pesam
e me prendem à terra,
comum dos mortais.
E em vez de voar,
Caminho
com dificuldade.

Como em Tempos

 Como em tempos, lembro-me de alguém dizer, conheci alguém quase como tu, e parece tê-lo ouvido de novo. Como em tempos senti que não precis...