segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

Encontro de almas

"Vem,

Conversemos através da alma.
Revelemos o que é secreto aos olhos e ouvidos.

Sem exibir os dentes,
Sorri comigo, como um botão de rosa.
Entendamo-nos pelos pensamentos,
Sem língua, sem lábios.

Sem abrir a boca,
Contemo-nos todos os segredos do mundo,
Como faria o intelecto divino.

Fujamos dos incrédulos
Que só são capazes de entender
Se escutam palavras e vêem rostos.

Ninguém fala para si mesmo em voz alta.
Já que todos somos um,
Falemos desse outro modo.

Como podes dizer à tua mão: “toca”,
Se todas as mãos são uma?
Vem, conversemos assim.

Os pés e as mãos conhecem o desejo da alma.
Fechemos pois a boca e conversemos através da alma.
Só a alma conhece destino de tudo, passo a passo.

Vem, se te interessas, posso mostrar-te"


– Jalâl ad-Din Rûmî, em “Poemas Místicos: Divan de Shams de Tabriz”. [seleção, introdução e tradução José Jorge de Carvalho]. São Paulo: Attar Editorial, 1996.

domingo, 26 de dezembro de 2021

Pouco sei

 Sei o cheiro dos teus cabelos,

sei que quando não os consigo cheirar,

cheiram sempre diferente,

e isso apoquenta-me e faz-me sonhar.

Quando o apanhas dá vontade,

como uma criança,

de enredar os dedos, e brincar.

Quando o soltas,

fico apenas a olhar, num olhar de relance,

rápido, que depois fica

a saborear.

Sei que quando soltas o teu rosto,

daquele ar firme e sério,

acho graça, sem o saber explicar.

Admiro os teus seios pois sei,

de olhos fechados, que as minhas mãos

em concha os encaixariam na perfeição.

Sei das tuas costas, que duas mãos esticadas

chegariam para as massajar na totalidade

com movimentos verticais

de alto a baixo.


Como em Tempos

 Como em tempos, lembro-me de alguém dizer, conheci alguém quase como tu, e parece tê-lo ouvido de novo. Como em tempos senti que não precis...